A FORMAÇÃO E EVOLUÇÃO DOS SOBRENOMES

Pesquisando as origens dos nomes de família, concluímos que estes chegaram até nós de diferentes formas e podem ser classificados em diversas categorias, as quais, em muitos casos, estão inter-relacionadas porque são comuns os sobrenomes que podem ter duas ou mais origens possíveis.

Há na internet sites que reivindicam origens judaicas para todas as pessoas do mundo. Nesses sites todos os nomes de família constam como sendo “de origem judaica”, por um interesse mal intencionado de alegar que todos têm origem judaica. Partem da premissa de que se houve judeus com todos os sobrenomes, então todos os sobrenomes são de ascendência judaica. Com relação a sobrenomes alemães há diversos sites intitulados “nomes alemães de origem judaica” e neles estão todos os nomes alemães. Estas listas são vastas e propositalmente enganadoras. O fato de alguns judeus terem adotado sobrenomes alemães não significa que estes respectivos sobrenomes passaram a ser judeus.

Migrações e guerras foram fatores cruciais nas transformações dos sobrenomes. As pessoas perdiam seus documentos ou deles se livravam e adotavam novos nomes que não denunciavam sua origem, para cruzar uma fronteira ou escapar do serviço militar. Assim, vários sobrenomes se desfiguraram quando seus portadores se mudavam de país. Muitas vezes, o imigrante não sabia a língua local ou não sabia escrevê-la. Por isso, muitos integrantes da mesma família possuem sobrenomes com grafias diferentes. À medida que as pessoas migravam de um país para outro, por escolha ou por imposição, tinham constantemente de adaptar, diminuir, aumentar, dar outra grafia ou simplesmente trocar os sobrenomes. Assim, nestes casos, por uma ironia da História, o propósito dos sobrenomes (possuir um registro permanente de laços familiares) ficava subvertido.

Entendemos a grande profusão de sobrenomes parecidos e o fato de muitos sobrenomes não terem um significado conhecido levando em conta as mudanças naturais que acontecem no correr do tempo. Muitos provém de regiões alemãs de fora da Alemanha. Outros tantos são provenientes de outros idiomas. Outros ainda são versões reduzidas de nomes mais antigos. Ao longo dos séculos, muitos sobrenomes passaram de um país para outro e continuaram a evoluir, muitas vezes chegando a versões espantosamente diferentes da forma original. A tendência de suprimir partes de uma palavra com objetivo de dizê-la ou escrevê-la mais rapidamente é muito antiga e natural. Lenta e imperceptivelmente, conforme a comunicação se torna mais dinâmica e o tempo mais valioso, as palavras vão se modernizando por meio da supressão de letras e sílabas. E, conforme o tempo se torna mais valioso e a comunicação mais dinâmica, a simplificação dos termos tende a se acelerar ainda mais.

 

SURGIMENTO DOS SOBRENOMES

Não há regra: os sobrenomes podem vir da origem mais simples possível ou da mais complicada e obscura. A única certeza é que tudo começou muito tempo atrás, quando as aldeias começaram a crescer, a população aumentou e veio a necessidade de escolher um nome de família. Calcula-se que os primeiros sobrenomes surgiram na China, há quase 5 mil anos, e chegaram ao Ocidente por volta de 500 a.C., no Império Romano que adotou três nomes: o nome próprio, um segundo, do clã, e o terceiro, de família.

Em muitos casos, o sobrenome se referia, simplesmente, à profissão da pessoa, como Taylor e Carpenter, que vêm de alfaiate e carpinteiro, em inglês, ou Cavalcanti, derivado de cavaleiro. Mais comuns eram as referências religiosas, que deram origem a sobrenomes como Santos, Anjos, Trindade, Assunção e Aleluia. A fauna e a flora também colaboraram bastante para inspirar sobrenomes como Carneiro, Pinto, Pinheiro, Leão, Matos, Rios, Fontes, Campos, Ribeiro, Rocha e tantos outros.

Eles foram criados para diferenciar os nomes repetidos – fato comum desde as culturas mais antigas.

Os primeiros sobrenomes de que se tem notícia são os patronímicos – nomes que fazem referência ao pai: Simão Filho de Jonas, por exemplo.

Esse gênero difundiu-se bastante na língua inglesa, em que há uma grande quantidade de sobrenomes que terminam em son (filho) – como Stevenson, ou “filho de Steven”.

Como esse método era limitado, alguns sobrenomes começaram a identificar também o local de nascimento: Heron de Alexandria.

Foi na Idade Média que muitos sobrenomes europeus surgiram, sobretudo os sobrenomes franceses, alemães e ingleses. Geralmente se dizia o nome da pessoa e o nome do feudo ou região a que pertencia, isso era mais comum entre nobres, por exemplo: Felipe de Volois, Eleonor da Aquitânia, etc.

Se a pessoa tivesse um título dizia-se o título e o nome do feudo, exemplo: Duquesa de Maudribourg, Condessa de Peyrac, Duque de Órleans; se no histórico da família havia muitas posses, muitos feudos, pronunciava-os todos, dependendo da ocasião, exemplo: Angelique de Sancé de Monteloup de Peyrac Morens d’Iristrus.

No caso dos pobres camponeses, que nada possuíam, seu sobrenome originou-se de sua função ou de seu aspecto físico.

Dentro do feudo existiam diversas atividades além da agricultura, por exemplo, a função do ferreiro, do padeiro, do cobrador de pedágio, etc. A França, hoje em dia, é rica de sobrenomes que significam profissões, assim como a Alemanha.

Alguns exemplos são:

Isabelle Dupont: Dupont significa “da ponte”, provavelmente a Isabelle tem um ancestral que era da ponte, ou seja, cobrava o pedágio para atravessar a ponte.

Charles Dufour: Dufour significa “do forno”, certamente o ancestral do Charles era do forno, ou seja, cobrava imposto dos camponeses que utilizavam o forno.

Pierre Moulin: Moulin significa “do moinho”. O ancestral do Pierre cobrava imposto para poderem usar o moinho.

Luc Dubois: o ancestral dele morava em um bosque ou cuidava de um (consequentemente morava nele).

O registro sistemático dos nomes de família, independente de classe social, começou no século XVI, por decreto da Igreja Católica, no Concílio de Trento (1563).

 

OS SOBRENOMES ALEMÃES NO BRASIL

Quando a maior parte dos imigrantes veio para o Brasil ainda não existia a Alemanha como país. No Brasil não houve ‘abrasileiramento’ ou ‘aportuguesamento’ dos sobrenomes. Não existiu uma forma padrão para abrasileirar os nomes alemães. Houve mutações explicáveis pelo fato de serem registrados conforme eram entendidos de ouvido. Entre os casos mais curiosos estão Forscheim que virou Furquim e Creutzburg que se transmutou para Kras Borges. Interessante também que alguns Schwancks passaram a ter João de sobrenome, alguns Rammachers se transformaram em Ramos com longa história e ascendência e lá pelas tantas alguns Freires descobriram que tinham antepassados Frayer ou Freyer. Cumpre ressaltar que nos locais com maior concentração de luteranos os sobrenomes conservaram mais as características originais pelo fato óbvio de que os pastores escreviam em Alemão. Depois teve a Lei de Nacionalização, mas já foi bem mais tarde, na década de 40 do século XX.